CASAIS EM CRISE, CORAÇÃO ENDURECIDO

Atualizado: Abr 28


O evangelho deste XXVII domingo comum nos oferece uma oportunidade de refletir sobre a beleza do matrimônio e o desafio de manter o coração acolhedor ao dom do amor. A dureza de coração é como ferrugem que pode destruir até mesmo a solidez de um amor.

O evangelho (Mc 10, 2-16) começa dizendo que os fariseus, querendo tentar Jesus, colocam a ele uma pergunta como armadilha. O divórcio entre o povo de Jesus era uma prática e Moisés era uma referência. Condenar o divórcio, colocaria Jesus contra o povo; desmentir Moisés seria risco de uma quase blasfêmia. É interessante que Jesus se preocupe pouco com as intenções daqueles que o interrogam. Para nós, muitas vezes, se o outro que nos escuta não demonstra boa vontade, encontramos nisso como que um obstáculo e, por isso, às vezes desviamos a conversa por causa da intenção malvada daqueles que nos escutam. Jesus, ao contrário, em tudo vê uma ocasião de anunciar a mensagem do Reino. No tempo de Jesus, as razões para o homem pedir divórcio variavam muito. Os mestres mais rigorosos diziam que o motivo teria que ser uma traição da mulher, outros ensinavam que alguma coisa da parte da mulher que fosse inconveniente já seria motivo – por exemplo, conversar com um homem na rua -, os mestres mais liberais entendiam que até mesmo por queimar a comida a mulher poderia ser dispensada... A pergunta de Jesus «Que vos ordenou Moisés?» chama os fariseus a olhar qual seria o ponto comum, o fundo da questão. Quando respondem que Moisés permitiu, Jesus imediatamente responde: «Por causa da dureza dos vossos corações ele escreveu para vós este mandamento» (cf. Mc 10,5). E acrescenta, o texto do livro do Gênesis em que narra a criação do homem e da mulher e seu chamado ao matrimônio.

A dureza do coração experimentada na vida de um casal não é coisa fácil, é geralmente uma experiência muito triste. Quando você pode observar porque conhece o casal, a pergunta é essa: Eles se amavam tanto, como agora se maltratam tanto?! Muitas coisas podem ir endurecendo o coração de um casal: a falta de um diálogo sincero, o excesso de ouvir comentários de terceiros, o deixar-se influenciar por pessoas que nem sempre sabemos quais intenções têm por nós, os pequenos egoísmos que são alimentados e até mesmo a falta de reconhecimento dos dons que foram recebendo ao longo da vida.

É só imaginar um casal jovem, de uns 16/17 anos na idade em que se está terminando o ensino médio, ainda talvez nem trabalhem. Mas os casais mais velhos deveriam observar o modo como geralmente se tratam: o desejo de estarem juntos, a delicadeza no modo de se chamarem, etc. Mas tem uma coisa ainda mais interessante. Muitas vezes quando saem para passear, o orçamento é curto. Às vezes o rapaz só pode bancar o cinema e olhe lá. E depois do cinema, ele oferece à namorada um sorvete do McDonald’s, por exemplo. Não compram dois, compram um e tomam juntos. Orçamento curto e amor a mil!

O tempo passa e as coisas mudam, e quantas vezes marido e mulher começam a desprezar o gosto do outro. Já com um orçamento mais tranquilo, talvez um diga para o outro: Você compra o que você quer comer, eu compro o que eu quero comer. Nossos gostos são diferentes! O exemplo é banal, simplório, mas revela que algo se perdeu pelo caminho. Talvez as condições econômicas melhoraram, mas não houve tanto progresso nos sentimentos. O coração foi endurecendo... é lógico que cada um tenha seus gostos, preferências, mas quantas vezes isso vai sendo motivo de distância entre o casal. O sacrifício que faziam no começo, hoje já não querem fazer.

Uma outra coisa interessante é que boa parte de brigas entre casais aconteça por problemas financeiros. Às vezes o coração endurece quanto mais próximo esteja do bolso. O conselho que dou aos casais, mesmo que cada um ganhe bem e tecnicamente um não precise financeiramente do outro é que devem somar o salário para dividirem juntos as despesas. Primeiro eliminam as despesas, depois organizam o que poupar e finalmente é ora de pensar nos caprichos que cada um gosta. Mas sabemos que nem sempre é assim...

Depois dos 6 anos de matrimônio, por exemplo, geralmente o casal passa por uma certa crise. Coincide com o fato que alguns móveis da casa ou utensílios tenham se estragado, o primeiro filho já ocupou muito a vida dos dois e o casal provavelmente comece a ter mais estabilidade profissional. É uma crise interessante. Parece que a vida a dois, ou a três está sendo um peso... Essa fase é muito perigosa, e o casal precisa saber fazer uma lista daquilo que de fato é problema de convivência e aquilo que é simplesmente desgaste do dia-a-dia.

Na vida do casal, depois que cada um tenha passado um pouco dos seus quarenta anos, aparece uma crise mais complicada. A chamada crise da meia idade. Nessa fase, geralmente, os filhos já estão mais adultos, o casal se aproxima das bodas de prata, mas são assaltados por uma crise enorme. Os dois mudaram, e mudaram muito e nessa fase cada um tem uma necessidade diferente.

A mulher que muitas vezes se dividiu entre o cuidado dos filhos, a vida profissional e o cuidado a si mesma, percebe que tem mais possibilidade de abrir seus horizontes. Sente uma necessidade de ser mais independente. No fundo, não é que deseja independência do marido, deseja apenas sentir-se independente. Jung, um grande psicanalista, diz que nessa fase a mulher geralmente sonha com um homem, um homem perfeito com qualidades incomparáveis. Isso deixa a mulher numa angústia. No final das contas, este homem ideal dos sonhos, nada mais é do que um lado dela que ficou escondido, que não foi possível realizar por causa dos inúmeros trabalhos que tinha. Esse homem perfeito é ela mesma, no desejo que tem de aperfeiçoar-se.

Nessa mesma fase, seu marido ultrapassando os quarenta anos começa a se sentir inseguro. Cedo ou tarde a aposentadoria virá e com ela o cenário da vida começa a parecer ameaçador. Nessa fase o homem se intimida, procura refúgio em sua família... E aí começa o problema... Os filhos já não precisam tanto dele, seu posto de chefe de família está ameaçado e sua esposa nutre desejos de independência... Imagina o drama!

Nessa fase, o casal, se desenvolveu uma espiritualidade adequada pode encontrar um caminho de maior crescimento, descoberta de si mesmos e principalmente, de como um completa o outro. O marido com suas intermináveis exigências e necessidades não é exatamente um tirano que quer prender a esposa, é, na verdade, quase um menino amedrontado que deseja colo. A mulher com seu desejo de independência não é uma insensível ao seu marido, é apenas alguém que hoje vê que pode fazer mais, pode ser mais. É livre.

Nenhum casal supera suas crises se não desenvolve em si uma capacidade de diálogo, de aceitação e de perdão. Ao longo da vida acumulamos muitas coisas, outras perdemos e precisamos sempre saber recomeçar.

Desejo a todos os casais que desenvolvam uma espiritualidade fortalecida na vida da comunidade, recebendo os sacramentos – especialmente a eucaristia e a confissão -, e buscando oportunamente o auxílio necessário para bem viver sua vocação.

A todos os casais, desejo muita alegria, serenidade e bênção.


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Deus abençoe.

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