Comunidade paroquial ou "paroqueta"?
- cleiton viana da silva
- há 3 dias
- 4 min de leitura
Entenda por que algumas comunidades passam a agir como pequenas paróquias independentes e descubra como fortalecer a comunhão paroquial.
Ao longo dos anos de ministério sacerdotal, uma realidade tem chamado minha atenção. Em diferentes paróquias encontrei comunidades extraordinárias, formadas por pessoas generosas, disponíveis e profundamente comprometidas com a evangelização. São homens e mulheres que dedicam tempo, talento e recursos para manter viva a fé em suas comunidades. No entanto, justamente por acompanhar tantas experiências, comecei a perceber uma tentação que aparece com frequência e que, quando não é corrigida, acaba enfraquecendo a própria missão da Igreja.
Para explicar essa realidade, aprendi com um padre mais experiente a usar uma expressão que não existe nos livros de Teologia nem nos documentos da Igreja: "paroqueta". É apenas um neologismo para descrever uma comunidade que, aos poucos, passa a agir como se fosse uma pequena paróquia independente. Naturalmente, essa não é uma escolha consciente. Ela nasce lentamente, quase sempre motivada pelo desejo sincero de fazer o bem, mas termina produzindo um efeito contrário ao Evangelho da comunhão.
Quando a comunidade começa a viver para si
Esse processo normalmente começa de maneira muito discreta. Aos poucos, a comunidade deixa de perguntar o que é melhor para toda a paróquia e passa a perguntar apenas o que é melhor para ela. Sem perceber, surgem expressões que revelam essa mudança de mentalidade: "nossa festa", "nosso dinheiro", "nossa coordenação", "nosso patrimônio", "nossos agentes". Nenhuma dessas expressões é errada em si mesma. O problema aparece quando a comunidade deixa de reconhecer que tudo isso existe para servir a uma missão maior.
Nesse momento, a comunidade deixa de compreender a si mesma como uma expressão concreta da única paróquia e começa a agir como se possuísse uma vida própria, quase independente. É aí que surgem comparações, disputas silenciosas, dificuldades para acolher decisões comuns e uma constante necessidade de defender os próprios interesses. A comunhão vai cedendo espaço ao espírito de grupo.
A Igreja não funciona como uma empresa
Talvez uma das maiores dificuldades pastorais esteja justamente na maneira como compreendemos a organização da Igreja. Muitas vezes, sem perceber, aplicamos uma lógica empresarial à vida paroquial. Imaginamos a paróquia como uma matriz e as comunidades como pequenas filiais, cada uma administrando seus recursos, organizando suas atividades e buscando crescer por conta própria.
Entretanto, essa não é a visão da Igreja. A comunidade não existe ao lado da paróquia, nem abaixo dela, muito menos em concorrência com ela. A comunidade existe dentro da paróquia. Ela é uma presença concreta da única Igreja naquele território, participando da mesma missão, da mesma evangelização e da mesma comunhão.
Essa diferença parece pequena, mas transforma completamente a maneira de viver a pastoral. Quando uma comunidade se entende como parte da paróquia, suas decisões deixam de ser guiadas apenas pelos próprios interesses e passam a considerar aquilo que fortalece toda a família paroquial.
A comunhão sempre pede renúncias
Nem sempre aquilo que beneficia uma comunidade isoladamente será o melhor para toda a paróquia. Essa é uma das experiências mais difíceis de amadurecer na vida pastoral. Muitas vezes será necessário abrir mão de um projeto, de um costume ou até mesmo de uma tradição local para fortalecer uma iniciativa que envolva toda a comunidade paroquial.
Penso na imagem de uma família. Cada filho possui sua história, seus amigos e sua identidade. Entretanto, existem momentos em que a família decide celebrar unida. Ninguém deixa de ser filho porque participa da mesma festa. Ao contrário, a reunião recorda que existe algo maior do que os interesses individuais: existe a família.
A paróquia também é essa grande família. Cada comunidade conserva sua riqueza, sua espiritualidade e suas características próprias, mas encontra sua verdadeira identidade quando percebe que faz parte de uma realidade muito maior do que ela mesma.
O desafio de formar uma consciência de Igreja
Confesso que uma das tarefas mais exigentes do ministério sacerdotal não é organizar festas, reuniões ou pastorais. O verdadeiro desafio é formar uma consciência de Igreja. É ajudar as pessoas a compreenderem que amar a própria comunidade nunca pode significar colocar seus interesses acima da comunhão paroquial.
Não se trata de diminuir as comunidades, muito menos de retirar sua identidade. Pelo contrário. Uma comunidade torna-se mais forte justamente quando coloca seus dons a serviço da missão comum. Quanto mais ela contribui para o crescimento da paróquia, mais realiza sua própria vocação.
Talvez o maior perigo para uma comunidade não seja ser pequena, mas esquecer que pertence a um corpo maior. Quando isso acontece, ela fortalece o grupo, mas enfraquece a comunhão. Quando permanece unida à paróquia, fortalece não apenas a própria comunidade, mas toda a Igreja.
É justamente aí que está a diferença entre uma comunidade e uma "paroqueta". A primeira sabe que existe para tornar visível a comunhão da Igreja. A segunda corre o risco de viver apenas para si mesma. E nenhuma comunidade realiza plenamente sua missão quando perde de vista que faz parte da única família de Deus.
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Padre Cleiton Silva
Sacerdote da Diocese de Mogi das Cruzes (SP), assessor diocesano da Pastoral do Dízimo e autor dos livros Dízimo: uma nova experiência – itinerário espiritual e Dízimo Mirim: agradecer desde pequeno. Tem assessorado diversas dioceses pelo Brasil na formação de equipes e na conscientização do dízimo. Acompanhe os trabalhos do Padre Cleiton Silva nesse link. Clique aqui.

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