Lobos em pele de tradição: por que as ordenações episcopais sem mandato apostólico não defendem a Igreja
- cleiton viana da silva
- 1 de jul.
- 4 min de leitura
Compreenda por que as ordenações episcopais sem mandato apostólico não defendem a Tradição da Igreja, mas colocam em risco a comunhão eclesial.
Há um detalhe que talvez seja o mais revelador em toda essa cerimônia. Quando o rito pergunta se existe o mandato apostólico, não se responde "sim" e continua com a leitura do mandato apostólico. Também não se responde "não" o que deixaria evidente o ato de desobediência contumaz, mesmo depois de várias admoestações do santo Padre. Em vez disso, faz-se um longo discurso. Essa substituição diz muito. Porque a questão não era explicar as razões do ato. A questão era simplesmente responder se existia ou não aquilo que a Igreja exige para uma ordenação episcopal legítima: o mandato do Romano Pontífice.
Não havia. E justamente por não haver, construiu-se uma narrativa para justificar a ausência.
É aqui que se torna atual a advertência de Cristo sobre os lobos vestidos em pele de cordeiro (Mt 7,15). A pele de cordeiro, neste caso, é um discurso em vista de “salvar” a tradição. Fala-se continuamente em Tradição, em depósito da fé, em Magistério constante, em fidelidade aos Apóstolos. Tudo parece profundamente católico. Entretanto, por trás dessa linguagem existe um ato objetivo de desobediência à própria constituição hierárquica da Igreja.
É importante fazer uma distinção que muitos ignoram.
Amar a tradição não é um problema. Pelo contrário. Todo católico deve amar a tradição viva da Igreja, pois ela é uma das fontes pelas quais Deus transmite a fé. Também é legítimo reconhecer que determinados textos do Concílio Vaticano II suscitaram debates teológicos, diferentes interpretações e pedidos de esclarecimento. A própria Igreja nunca proibiu uma discussão teológica séria e respeitosa sobre a recepção do Concílio.
Mas uma coisa é discutir textos conciliares. Outra, completamente diferente, é concluir que a Igreja perdeu a fé, que suas autoridades ensinam o erro de modo generalizado e que, por isso, alguém se julga autorizado a exercer um poder reservado ao sucessor de Pedro.
Esse salto não é fidelidade à tradição. É a substituição da autoridade da Igreja pela própria consciência, mesmo que isso se repita em dez indivíduos, dez mil ou um milhão...
O texto lido durante a cerimônia afirma que, desde o Concílio Vaticano II, as autoridades da Igreja seriam movidas por um espírito contrário à fé e à Sagrada Tradição. A consequência lógica dessa afirmação é devastadora: durante mais de sessenta anos, a Igreja universal teria sido conduzida por pastores infiéis, enquanto a verdadeira fidelidade estaria preservada em um grupo que decide, por conta própria, quais atos do Magistério merecem obediência e quais devem ser rejeitados. Percebem o problema?
Essa lógica não protege a tradição. Ela destrói o princípio católico da comunhão.
Porque, no fim, deixa de existir uma autoridade visível capaz de confirmar os irmãos na fé. Resta apenas o julgamento particular, ainda que revestido de citações patrísticas, da liturgia tradicional e de referências ao Magistério anterior. A verdadeira tradição nunca foi um museu de fórmulas.
Ela sempre foi uma realidade viva, recebida e transmitida na comunhão da Igreja. A tradição não existe contra Pedro. Nem apesar de Pedro. Ela é transmitida na Igreja que Cristo edificou sobre Pedro. Por isso, o problema dessas ordenações não é simplesmente jurídico. É eclesiológico. É (anti)evangélico.
Não se trata apenas de uma norma canônica descumprida; o que por si só é de gravidade absurda. Trata-se da pretensão de que um grupo possa decidir, em nome da própria interpretação da tradição, quando a autoridade da Igreja deixa de obrigar e quando ela pode ser ignorada.
Sempre que isso acontece, a tradição deixa de ser serviço à Igreja e passa a servir ao próprio grupo. Esse é o risco mais grave. Porque o apego deixa de ser à Tradição. Passa a ser ao próprio juízo. E quando alguém coloca a própria interpretação acima da comunhão da Igreja, mesmo usando uma linguagem profundamente tradicional, a pele pode continuar sendo de cordeiro, mas já não é ela que revela quem realmente conduz o rebanho.
Por isso, este é também um convite a cada fiel católico. Não se deixem seduzir por discursos que fazem do apego à tradição um pretexto para romper a comunhão da Igreja. A tradição não é patrimônio de um grupo, nem bandeira de um movimento; ela é a vida da Igreja transmitida de geração em geração, sob a ação do Espírito Santo. Quem deseja permanecer fiel à fé católica encontre sua segurança na comunhão concreta com a Igreja: unido ao seu bispo diocesano, em comunhão com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e, por meio dela, em plena comunhão com o sucessor de Pedro. A verdadeira fidelidade nunca se constrói contra a Igreja, mas dentro dela. Afinal, Cristo não prometeu assistir pequenos grupos que se autoproclamam guardiões exclusivos da tradição; prometeu permanecer com a sua Igreja até o fim dos tempos (Mt 28,20). É nessa Igreja, una, santa, católica e apostólica, que a Tradição permanece viva, fecunda e segura.
Padre Cleiton Viana da Silva é do clero da Diocese de Mogi das Cruzes (SP), doutor em teologia moral pela Academia Afonsiana (Roma) e professor na Faculdade Paulo VI.

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