CORONAVÍRUS É CASTIGO? O QUE JESUS DIRIA?

Atualizado: Jul 30


A doença é castigo de Deus? Quantas vezes você já viu as pessoas dizerem que doença é castigo de Deus. Algumas até usam a bíblia para comprovar isso. Mas Jesus ensinava que doença é castigo? Se você tem essa inquietação no coração, este texto é para você.


A princípio, este texto é a transcrição adaptada de um áudio que fiz para a coordenação da Animação Bíblico-Catequética da Subregião SP. Meu agradecimento aos padres Renan Ferreira Cabral e Ricardo Vergara que fizeram a transcrição do áudio e me permitiram melhorar essa reflexão.


Todos os dias estamos falando de doença, de contágio e tenho certeza que cada cristão nesse momento se pergunta sobre o sentido da enfermidade, como nós podemos enfrentar a partir da nossa própria fé esse momento tão peculiar e tão difícil. Sabemos que tudo isso vai marcar nossa história, a história do nosso povo brasileiro e em tantas partes do mundo.


Tudo está sob a providência de Deus


Nada escapa da providência de Deus, isso para mim é uma certeza! E como eu dizia nada escapa da providência de Deus! Nesse momento que estaremos nos reunindo até mesmo para a missa via internet, pela televisão, e tantas coisas diferentes acontecendo acredito que a gente precisa ter presente e lembrar que tudo está nas mãos de Deus, nada escapa da providência, do amor e da bondade do Senhor.


Nesse sentido, para mim, a gente olha o tema da enfermidade e o evangelho desse domingo 22/03/2020 (4º Domingo da Quaresma). Ele é muito interessante para a gente refletir, é exatamente o capítulo nono do evangelho de São João que é a “cura do cego de nascença”. Diz a leitura:


Ao passar ele viu um homem, cego de nascença. Seus discípulos lhe perguntaram:

“Rabi, que pecou, ele ou seus pais, para que nascesse cego?” (cf. Jo. 9, 1-2)


Essa é a pergunta comum que as pessoas têm diante da enfermidade. A enfermidade muitas vezes parece um castigo, que se parece com alguma coisa que se levanta como inimiga da nossa existência.


Enfermidade: lugar da manifestação da obra de Deus


Na verdade, não deveria ser assim o pensamento. A resposta de Jesus aos discípulos é exatamente essa:


“Nem ele nem seus pais pecaram, mas é para que nele sejam manifestadas as obras de Deus” (cf. Jo 9, 3).


Aqui Jesus já indica outro caminho para compreender a enfermidade porque muitas vezes no Antigo Testamento e na consciência comum da pessoas a enfermidade é associada à alguma forma de castigo, uma forma da ira de Deus. Isso muitas vezes é complicado porque se alguém está sendo castigado por Deus eu não tenho que me envolver, eu não tenho que me preocupar.


Essa ideia da doença como castigo ela serve para liberar nossa consciência da responsabilidade sobre o outro. Então se o outro está sendo castigado, ele que se vire: eu o deixo abandonado.


Porém, o modo como Jesus vive na companhia de enfermos, como Ele atende essas pessoas, como Ele se coloca ao lado delas, Jesus demonstra uma outra visão: a enfermidade é a ocasião de conhecer alguma coisa do agir de Deus. Então para isso, a gente precisa situar a enfermidade: o que é a doença na minha vida? O que é a enfermidade na minha vida?


Somos criatura, não o Criador

Eu vou dizer uma coisa e eu não quero alarmar ninguém (risos) se a gente não morrer de COVID19, a gente vai morrer de outra coisa. Em algum momento o nosso corpo vai expressar os seus limites, e é aqui justamente o ponto que gostaria de comentar com vocês.


A enfermidade é marca da nossa vulnerabilidade, então nós somos criaturas e não somos Deus, nossa vida é limitada e não só porque vai chegar a um fim.


Mas já esse fim qualifica, reorganiza, reorienta a nossa existência: a gente não pode tudo que a gente imagina. A gente não consegue tudo que a gente idealiza. E a enfermidade é justamente esse registro que o ser humano não tem o controle total sobre a sua vida. A enfermidade é a marca da nossa vulnerabilidade, quer dizer, eu posso ser ferido. Temos força, andamos por aí, e nem andamos muito nesse dias, né? (risos), mas em um determinado momento a nossa existência pode sofrer alguma ferida, sofrer uma agressão, ou determinado limite.


A enfermidade faz parte da nossa existência e isso não significa que eu não vou cuidar da saúde, do bom funcionamento do corpo, não vou ter atitudes que possam promover, prolongar, sustentar melhor a nossa experiência de saúde. No caso do coronavírus lembramos ainda mais nossa responsabilidade de evitar sua propagação. Mas a enfermidade faz parte da nossa existência; ela é algo que pertence ao normal da nossa vida.


Solidariedade: único remédio eficaz


Agora o modo com Jesus enfrenta a enfermidade para nós também se torna depois um padrão de comportamento. Então se a enfermidade não é um castigo de Deus, ela faz parte da nossa vida e da nossa existência, como é que a gente se comporta com o outro que sofre? Como nos comportamos com os enfermos, com as pessoas feridas no seu próprio corpo?


Vocês vão se lembrar de várias passagens do evangelho, principalmente quando se aparecia a figura do leproso, do homem de mão ressequida, do cego, do surdo, das pessoas possuídas pelo demônio, tantas coisas. Jesus sempre tinha gestos muito expressivos, alguns ele mandava vir para o centro, o centro físico, geográfico, mas também o centro da atenções; Jesus que estende a mão e toca o enfermo, que se deixa tocar pela hemorroíssa, que tira o cego do meio da multidão para curá-lo, então são vários gestos de Jesus que demonstram o cuidado que devemos ter com vulnerabilidade do outro e nossa.


Então, se o homem, a existência humana, é marcada pela vulnerabilidade, a resposta de grandeza a essa vulnerabilidade é sempre o cuidado, a solidariedade e a compaixão.


Nesse sentido eu gostaria de indicar para vocês, hoje a gente têm tantos recursos na internet, e teremos tantos dias talvez com a possibilidade de ler um pouco mais, é um documento do Papa João Paulo II de 1984, documento do dia 11 de fevereiro (dia que se reza pelos enfermos na intercessão de Nossa Senhora de Lourdes) que é sobre o sentido cristão do sofrimento. O título latino é: Salvifici doloris, e é um texto maravilhoso para gente refletir qual a nossa resposta ao sofrimento semelhante à resposta de Deus sobre o sofrimento da humanidade.


Enfermidade: um possibilidade de encontro


No sofrimento que o homem experimenta, ele pode se com Deus, por isso que me preocupa muito quando as pessoas amaldiçoam a doença. Eu entendo que a gente vai combater, eu entendo que a gente não vai deixar que ela se alastre, entendo que a gente vai procurar todos os recursos para que uma pessoa não morra, se há condições dela viver. Isso é importante a gente entender.


Mas toda essa forma de maldição contra a doença é uma espécie de recusa em aceitar que somos limitados. Tem algo de soberba!


É verdade que a cura pode vir de Deus. É verdade que podemos esperar o milagre que venha do Senhor e isso faz parte da nossa fé. Mas deveríamos tomar muito cuidado, com as atitudes, às vezes, de revolta contra a enfermidade porque tira das pessoas a possibilidade de encontrarem a paz.


Então, isso a gente sempre repete e eu aprendi com meu orientador de tese em Roma o Pe. Antônio Gerardo Fidalgo: Deus não tira a gente da cruz, Ele salva a gente na cruz. Tantas pessoas que se encontraram com Jesus. Encontraram n’Ele o sentido para o seu sofrimento como também o sentido para sua alegria.


Nesses dias que nós vamos ter tanta possibilidade de refletir, de ficar um pouco mais em casa, de pensar sobre a enfermidade, eu provoco vocês querido irmão e querida irmã, a olharmos de uma maneira diferente para os limites da nossa vida. Cada limite e cada experiência de limite lembram a nossa dependência de Deus e dependência dos outros também. Se o homem é limitado a resposta ao seu limite é o cuidado, a solidariedade e a compaixão.


Se deseja aprofundar melhor o tema da vulnerabilidade, da indiferença e da ética do cuidar, recomendo assistir o vídeo DE QUE SOMOS FEITOS? CARNE, OSSO E FRAGILIDADE! ou a leitura deste texto: ENVELHECIMENTO E SOCIEDADE, capítulo 3!


Desejo a vocês uma boa reflexão, meditação, que esse período da quaresma tão diferente que a gente está vivendo seja um período grande da graça de Deus.

Deus os abençoe e a gente se vê pelas redes sociais.

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