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Amor-próprio não é pecado nem egoísmo

A nossa educação cristã pode criar em nós condições em que outra pessoa abuse da nossa boa vontade e não nos damos conta. Experimentamos isso naquela relação com um parente ou amigo de anos em que nos sentimos maltratados, mas sempre o apelo ao perdão, à paciência e ao amor parece sufocar um grito dentro da nossa garganta.
Nessas horas precisamos fazer um discernimento. Discernimento é coisa trabalhosa, mas é um trabalho essencial para o dia a dia. Discernir é pensar, é avaliar, é confrontar-se e tomar decisões. Decisão é sempre uma direção em nossa vida. Quem não decide termina por ficar parado... (Sobre discernimento há um capítulo inteiro no meu livro Coração inquieto. Clique aqui e conheça o livro.)

Amor-próprio não é pecado nem egoísmo
É fácil distinguir egoísmo de amor-próprio. Egoísmo é um fermento de maldade em que você não se preocupa com o outro, mas somente consigo mesmo.
Amor-próprio é coisa básica, bem simples. Sabe aquela orientação nos aviões sobre “primeiro você coloca a máscara de ar em você e depois você tenta colocar no outro?” O amor-próprio é tomada de consciência que você precisa existir para amar, você precisa cuidar de você para amar, você precisa estar em paz para amar. E isto não é egoísmo, é bom senso, é lógica básica.
O amor-próprio é entender que você precisa de um mínimo de espaço, de fôlego e de direção na sua própria vida. Diante de Deus você é um projeto único que é chamado a se realizar e na comunhão com os outros sua vivência desse projeto assume um contorno ainda mais robusto. O amor-próprio é condição do amor ao próximo e este jamais sufoca o amor por si mesmo.

Cuidado com os que chamam você de egoísta
Toda ruptura de relacionamento abusivo passa por um período de confusão, por isso falamos do discernimento. É muito comum quando você se dá conta de que há pessoas que abusam da sua boa vontade e corta as expectativas delas que elas joguem em você uma conta moral.
Frases como: você não percebe que está sendo egoísta? Olha como você está me fazendo sofrer? Você é de Igreja e está me tratando assim? Essas perguntas podem ferir bastante no começo, mas o discernimento vai ajudar você a encontrar a medida certa sobre como você deve se dedicar àquilo que o outro solicita de você.
As pessoas que procuram deixar claro seus limites podem realmente ser isoladas dos que vivem amontoados, mesmo que se machucando toda hora. É um preço da paz. As pessoas que aprendem a dizer não serão retratadas como egoístas por aqueles que é tudo “venha a nós, mas vosso reino nada!” É outro preço da paz. No fim das contas, você vai perceber que você não alimentava um relacionamento, mas um abuso.
A gente aprende a colocar limites quando a gente aprende a ter noção de orçamento do nosso dinheiro, do nosso tempo, das nossas emoções. Quanto eu tenho para gastar e me gastar nessa situação e com essa pessoa?

Algumas dicas, caso sejam necessárias. Use conforme seu discernimento aprovar.
Para quem está iniciando na arte de amar a si mesmo sem complexo de culpa nem imaginar que isso seja egoísmo, vale a pena algumas dicas e ideias bem práticas:
  • Amar a si mesmo não é egoísmo, é bom senso. Não confunda seu chamado à caridade cristã para permitir que as pessoas abusem de você.

  • Saiba organizar uma hierarquia das pessoas mais importantes na sua vida. O básico é que entre os esposos, reciprocamente, um ocupa o primeiro lugar na vida do outro, seguindo os filhos, os pais, os irmãos... Inverta essas coisas e você termina não amando ninguém. É minha opinião somente.

  • Se tem alguém para quem você não consegue dizer não, você precisa refletir mais sobre o que se passa. Qual o poder que esta pessoa tem sobre você? Qual o poder que você dá a ela?

  • Se ao dizer sim, ao abraçar um projeto, você se sente mal, é necessário refletir o que se passa. Dizer sim ao outro não pode significar um não a si mesmo. Há projetos que abraçamos e no começo nos assustam, mas com o tempo percebemos seu significado. Se isso não acontece, é bom repensar.

  • Tenha todo respeito como cada um quer viver sua vida, mas dentro da sua casa as coisas precisam funcionar de modo a garantir a você paz e tranquilidade. Mesmo a casa sendo espaço de outras pessoas, deve haver um mínimo de respeito e organização dos espaços comuns.

  • Saiba perceber quem você ama, a quem você quer bem e por quem você tem estima. Cada situação exige níveis diferentes de investimento do seu orçamento emocional. Releia esse parágrafo.



Padre Cleiton Viana da Silva é presbítero da Diocese de Mogi das Cruzes (SP), doutor em teologia moral pela Academia Afonsiana (Roma), mestre em bioética pelo Centro Universitário São Camilo, especialista em marketing e mídias digitais pela FGV, professor de teologia na Faculdade Paulo VI, autor por Editora Paulinas e ministra cursos presenciais e on-line. Conheça seus próximos cursos e atividades. Clique aqui.

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